quinta-feira, 23 de agosto de 2012

First Kiss.

Meu primeiro namorado era burro feito uma porta. Quando eu o conheci, ele deveria estar na oitava série, mas estava ainda na quinta. Lindo. As garotas da escola, de todas as séries, suspiravam por ele. Eu, confesso, não sabia que ele existia até poucas semanas antes do nosso "idílio".

Uma tarde depois da escola, conversando com o menino com quem eu, de fato, queria trocar salivas mas que nem sabia que eu existia enquanto ser do sexo oposto, surge a fatídica conversa do "mas você é afim de quem?" -- Ao invés de fazer o óbvio e  dizer "de você, tonto", optei por uma abordagem mais sutil: "gosto de um menino da sua rua"; "ele mora no mesmo quarteirão que você", "ele estuda na nossa escola", "ele tem quase a minha idade". O objeto dos meus olhares lascivos não teve dúvidas: disse que sabia quem era, que já estava tudo resolvido. E, antes que eu pudesse argumentar, saiu voando com sua monark verde.

No meio da novela das sete, enquanto eu ouvia a 89FM no quarto e lia a última Bizz da coleção, aparece o cabeçudo na bicicleta verde cercado por uns 5, 6 meninos de idades e tamanhos variados, montados em bicicletas e skates. Ele segurou minha mão e me levou pro lugar mais romântico do quarteirão: a esquina da minha casa onde estava me esperando meu príncipe nada encantado, mas lindo feito um bibelô.

Na hora, fiquei tão brava daquela anta não ter entendido minha declaração tão sutil, que resolvi "aceitar o presente". O menino com déficit de aprendizagem fez tudo certinho: me disse o quanto eu era bonita, o quanto eu era legal (tenho quase certeza que foi a primeira vez na vida que falei com ele) e me perguntou se eu queria ser a namorada dele. Eu perguntava o que ele ouvia (Guns, Poison, Skid Row), o que ele lia (gibi da Mônica e do Cebolinha) e o que ele gostava de assistir (futebol e Faustão) e só conseguia pensar em como ele conseguia errar todas as respostas. Enquanto ele me contava, empolgadíssimo, sobre o gol que ele tinha feito nos jogos escolares eu fiquei pensando se ele conseguiria soletrar exceção ou berinjela. Muito garboso, me deu 15 minutos pra pensar se eu queria namorar ou não. Analisei minhas opções enquanto ele alisava minha mão. O que eu tinha a perder? Já estava de saco cheio de ter 14 anos e nunca ter beijado ninguém. O garoto era lerdo mas era lindo, que mal podia fazer? E lá fui eu me tornar namorada do menino semi desconhecido. Ele me deu um beijo e foi a experiência mais molhada e nojenta da minha vida. Era aquilo? Passei 14 anos da minha vida fantasiando esse momento pra isso? Uma língua com vida própria e litros de saliva? Frustrante.

No dia seguinte a notícia se espalhou feito fogo pela escola. Todo mundo tentando entender de onde tinha saído aquele casal improvável. Como eu ía explicar se nem eu entendia? Recebi felicitações e olhares invejosos de meia escola. Justo eu que tinha passado os primeiros anos da adolescência rejeitando sistematicamente todos os garotinhos que vinham atrás de mim e me apaixonado platonicamente por garotos completamente fora das minhas possibilidades. Não, eu não estava interessada no meu namorado, mas não podia ignorar o fato de que ele era uma graça.

E ele foi um namorado exemplar: me buscava na aula de educação física, se oferecia pra carregar meus cadernos, dizia pras outras meninas que eu era linda e me mandava bilhetinhos (cheios de erros de ortografia, que eu corrigia e mandava de volta). Depois de uma semana fugindo pra não ter que repetir o beijo e usando o portão da casa dos meus pais como escudo, finalmente terminamos depois de uma conversa muito madura sobre a necessidade de vermos outras pessoas e sobre o fato de que éramos jovens demais pra um relacionamento sério. No dia seguinte ele começou a namorar uma menina da minha sala. 
Não posso dizer que eu tenha ficado triste ou chocada mas passei um bom tempo pensando se eu gostava de meninas, de meninos, ou se eu era um ser assexuado mesmo... 



Meses depois (ou décadas depois em tempos de aborrescente) a gente ficou quase amigo e tínhamos a mesma turma em comum. Logo perdemos contato, já que eu me formei pelo menos uns 3 anos antes que ele. Na última vez que a gente se viu, anos depois, ele usava bota com esporas. Eu tinha cabelo azul. Tempos estranhos. 




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